Número de médicos em exclusivo no privado dispara
Recursos humanos. O Serviço Nacional de Saúde está com falta de médicos e muitos estão a chegar à idade da reforma. Mas os privados já absorvem uma fatia relevante dos recursos médicos. As principais unidades já têm mais de 700 clínicos a trabalhar a tempo inteiro.
Diana Mendes
O número de médicos que abandonou o Serviço Nacional de Saúde (SNS) para ir trabalhar para o sector privado disparou nos últimos anos. Só as principais unidades dos três maiores grupos privados do País empregam hoje mais de 700 médicos a tempo inteiro, apurou o DN, um número que tem crescido "sobretudo nos últimos cinco anos", conta Isabel Vaz, presidente da Espírito Santo Saúde. "Há uma clara tendência de crescimento", acrescenta. Os dois maiores hospitais, Luz e Arrábida, empregam "cerca de 800 médicos. Calculamos que 70% ([cerca de 560] dos que lá trabalham estão em exclusivo". As outras unidades da ESS, mais pequenas, têm metade dos médicos em exclusividade. Na Luz, que já tem dois anos, a filosofia já era essa; na Arrábida, por outro lado,"apenas 10% a 20% dos médicos estavam no quadro há cinco anos", ressalva.
Na José de Mello Saúde a situação repete-se. Em 2001, a Cuf Descobertas tinha apenas três médicos vinculados."Hoje temos 62 em exclusivo", refere.No grupo trabalham já 110 médicos a tempo inteiro, correspondentes a 30% do total, segundo José Carlos Lopes Martins, administrador do grupo. O grupo tem actualmente mais um hospital e quatro clinicas, que têm mais 48 médicos no quadro. Nos Hospitais Privados de Portugal (HPP), a relação é a mesma. "Já temos 800 médicos a trabalhar connosco, quando tínhamos cerca de 450 há ano e meio. A maioria continua a trabalhar noutro sitio, especialmente no SNS. Mas os casos de exclusividade são cada vez mais",diz o administrador José Miguel Boquinhas. De 15 passaram para 62 médicos no quadro. Os três grupos têm um fatia de 65% a 75% da facturação total do sector privado. Em 2008, os resultados dos três ascenderam a 527 milhões de euros em 2008. E as previsões são de novo de subida. Logo.de mais contratações numa altura em que todos os especialistas reconhecem haver falta de médicos no SNS (ver texto ao lado). Isabel Vaz tem uma vasta experiência em contratações. Por isso é a primeira a desmistificar a importância do vencimento."O salário não é nem de perto nem de longe o mais importante. Um médico raramente decide ficar connosco pela questão monetária",refere. Apesar de ser o factor habitualmente mais referido, Isabel Vaz enumera outros mais relevantes: "perguntam-nos quais os profissionais que lá trabalham, as condições do bloco, as tecnologias e equipamentos disponíveis, tipos de cirurgia que fazemos, se temos uma boa medicina interna e equipa de enfermagem", avança. A responsável da ESS e José Carlos Lopes Martins, do grupo Mello, partilham as mesmas opiniões quanto à medicina privada. "Em cada uma das especialidades, a tecnologia disponível é a do estado da arte. Por vezes até temos equipamentos que não existem no público", diz Lopes Martins. O número de casos que lá chegam já permite realizar as mesmas técnicas (ou quase) que no público e a "organização das equipas"é estimulante. Isabel Vaz fala também em qualidade de vida:"Os médicos querem trabalhar apenas num sitio e acabam por escolher cada vez mais ficar no privado. E aqui têm boas condições e estruturas sofisticadas",conclui.
Proposta obriga a ficar no SNS pelo tempo do curso
Grupo de peritos deixa algumas recomendações consensuais para resolver o problema da falta de médicos em Portugal
Um conjunto de mais de vinte peritos nacionais propõe que os médicos recém-formados fiquem a trabalhar no Serviço Nacional de Saúde por um período igual ao da formação, que ronda, em média, cerca de dez anos. A proposta integra o livro Governação dos Hospitais, editado por Luis Campos, Rui Portugal e Margarida Borges. Num capítulo sobre planeamento e gestão de recursos humanos, da autoria de Paula Santana e Artur Vaz, apela-se a que o Estado garanta o retomo do investimento nestes profissionais. Solução que, tal como as restantes publicadas, teve o acordo de todos os intervenientes na obra.
Recordando dados de 2007 (ver caixa), os especialistas lembraram que o SNS empregava 23 265 médicos. Porém, 44% desse universo tinha mais de 50 anos. Nos cuidados primários, a percentagem ascendia a 71 %. Isto significa que se prevê a saída de 26% dos médicos dos hospitais e 56% dos cuidados primários entre 2008 e 2020.
Perante este cenário negro, os responsáveis propõem soluções como a melhoria da distribuição nacional dos médicos, a atribuição de incentivos à fixação em áreas ou o recurso à telemedicina. Na área da medicina geral e familiar, a aposta deste Governo apela a um plano de contingência com incentivos ao adiamento da reforma, contratação de médicos reformados, recurso à área social e privada ou o aumento das vagas para o internato de 30% para 33,5% do total. A produtividade deve ser avaliada e paga convenientemente e quem pouco trabalha deve ser penalizado. |