"As parcerias são modelos complexos, logo serão sempre propícios à litigância". O alerta veio de José Miguel Boquinhas, o único gestor privado que já está a gerir um hospital em parceria com o Estado. No VIII Fórum de Saúde do Diário Económico, o administrador da Hospitais Privados de Portugal mostra-se, ainda assim, confiante: "O novo modelo vai permitir poupar dinheiro, e é um excelente negócio para o Estado".
As vantagens das parcerias público-privadas e os seus riscos foram um dos principais temas em debate ontem de manhã, numa iniciativa que reuniu os principais administradores hospitalares. Ficou-se a saber, por exemplo, que os contratos de gestão das parcerias "chegam ao ponto de definir quantos galhos são permitidos nos jardins", disse o agora presidente do hospital Amadora-Sintra, Artur Vaz. Em Cascais, completou José Miguel Boquinhas, os ganhos na qualidade do serviço vão ser uma realidade, isto porque contam com um hospital novo e que tem de cumprir "83 parâmetros de desempenho" exigentes.
A aposta do Estado em tornar a gestão dos hospitais mais eficiente abriu a porta aos operadores privados para entrarem na área da saúde. No entanto, a opção pelo modelo de parcerias público-privadas (PPP) tem estado envolvida "em polémica baseada num grande desconhecimento do público do que está em causa na contratação das PPP", afirmou Isabel Vaz, presidente da Espírito Santo Saúde. Perante a revisão em baixa no projecto das PPP - que passaram de dez para apenas quatro -, Isabel Vaz não tem dúvidas em dizer que "os privados sentem que não são bem vindos a um sector em que as mudanças são difíceis". Além de que esta redução "não fará a grande reforma do sector".
Artur Vaz até concorda, mas lembra que "as pessoas são as mesmas, quer estejam no sector público ou privado". Aquele que foi um dos envolvidos na gestão da José de Mello Saúde, no Amadora-Sintra, ainda nos anos 90, confirma que a entidade gestora "desinvestiu durante o último ano e meio", mas considerou isso normal e garantiu que os doentes não foram afectados.De resto, a principal tarefa é mesmo preparar o hospital e garantir que os recursos humanos não continuem a sair. Para isso, é preciso ter instrumentos financeiros para segurar os profissionais. A dificuldade é também sentida pelo administrador dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Pedro Roldão sublinha, no entanto, que um dos principais problemas nas PPP será "a concorrência entre privados". Ao comentário, Adalberto Campos Fernandes não se conteve: "Temos agora boas condições para desfazer o mito, mostrando que o privado também pode aprender com o público". Dírcia Lopes e Mário Baptista
|