O responsável do Hospital de Cascais, entidade que completa um mês de funcionamento a 1 de Abril, acredita que a parceria público-privada poderá ser o futuro do Serviço Nacional de Saúde
JOÃO VARANDAS FERNANDES. Novas especialidades e valências compõem o recente Hospital de Cascais, que virá a receber em média 350 doentes por dia nas urgências, naquele que é considerado pelo director clínico como o hospital mais exigente do País. O espaço é constituído por oito pisos, 160 médicos e 300 enfermeiros e um dos seus pilares será a humanização dos cuidados de saúde.
Focus - Um mês depois da inauguração do Hospital de Cascais que balanço faz?
João Varandas Fernandes - O balanço que fazemos é que primeiramente conseguimos cumprir o que nos propusemos, que era a inauguração do hospital nas datas que estavam previamente estabelecidas. Em segundo lugar, mantivemos e desenvolvemos a actividade assistencial do hospital sempre nos mesmos moldes nos dias de transferência. Foi feita uma transferência por fases em que primeiro foram transferidos os doentes do hospital ortopédico Dr. José de Almeida, passados uns dias recebemos os doentes do antigo Hospital de Cascais (Conde Castro de Guimarães) e depois passados os quatro dias fizemos as transferências de tudo o que era logística e suporte para o tratamento dos doentes oncológicos que estava adstrito ao hospital oncológico. Em cerca de 15 dias fizemos a transferência de todas estas unidades para o novo hospital. A urgência começou a funcionar a 28 de Fevereiro e funcionou em simultâneo durante 24 horas com as urgências do antigo hospital de Cascais. Este tempo tem sido de acertos, de implementação de regras. Um momento de estabilizarmos a função que o hospital tem, que é servir os doentes, tratar os doentes o melhor que souber. Temos uma função de Serviço Nacional de Saúde. Temos uma função pública, apesar de sermos uma parceira público-privada, o nosso hospital presta assistência aos doentes desta área de influência. Temos esta obrigação, esta responsabilidade de criar bem-estar a toda a população. Estamos nesta fase numa adaptação às novas funções. Implementação de regras, de uma nova organização e de implementação de circuitos de funcionamento. É nesta fase que nos encontramos, mantendo a actividade normal em funcionamento sem nunca parar a actividade assistencial e em muitos casos aumentando cerca de 20 a 25 por cento a afluência dos doentes ao hospital de Cascais.
Focus - Como correu a transição para a nova unidade?
J.V.F - Bem. Transferimos cerca de 200 doentes. Tivemos uma preparação de cerca de seis meses e mais apurada nos últimos três. Envolveu um conjunto vasto de profissionais das mais diversas áreas, um apoio e uma logística assente em meios de transporte. Esse plano foi feito pormenorizadamente tendo em conta o número de doentes, a gravidade dos mesmos, o tipo de ambulâncias que eram precisas para transportar e o tipo de acompanhamento de que precisavam. Envolveu também o cálculo do número de ambulâncias, a preparação dos trajectos dessas mesmas ambulâncias e a escolha criteriosa do horário da saída dos doentes e da chegada dos doentes. Tudo correu sem qualquer incidente. Fomos muito exigentes, o que nos deixa satisfeitos e nos dá garantia de que temos um conjunto de profissionais capazes de dar uma resposta à população de Cascais e às oito freguesias do concelho de Sintra na área materno-infantil. O nosso hospital tem essa responsabilidade de dar bem-estar à população assumindo uma integrante do SNS. Temos cerca de 300 mil pessoas a quem prestar assistência em todas as especialidades. Estamos numa fase de implementação de método, uma época de grande desenvolvimento, pois houve um grande número de médicos recrutados no período de transição. Estamos a acertar pontualmente algumas especialidades com reforço quer de médicos, quer de enfermeiros, quer de outros técnicos de saúde.
Focus - Em termos de conceito clínico, o que é que o Hospital de Cascais vem oferecer de novo aos seus doentes?
J.V.F - A governação clínica assenta no novo modelo de contratualização, que é feita com os interlocutores da nova organização do hospital, que assenta em cinco departamentos médico-cirúrgicos e numa área complementar de meio de diagnóstico e terapêutica, que é transversal a todo o hospital. Esses cinco departamentos têm cinco directores e é contratualizado com eles um determinado programa e um determinado plano de acção que tem de se cumprir durante o ano de 2010, não só no que diz respeito ao número de consultas, de cirurgias, ou consumo de medicamentos, como o integral respeito pelos indicadores de desempenho e qualidade que temos nesta casa. A interacção com os próprios profissionais, com os directores de departamento e subsequente é contratualizada pelos responsáveis das unidades funcionais e num segundo tempo com todos os médicos de uma forma individual. Este é um dos eixos da nossa base clínica: a contratualização e esta envolve acima de tudo dois princípios: o da responsabilização e o da descentralização. O primeiro está inerente ao que o termo significa e o segundo prende-se com o facto de um hospital ter de ser governado em termos de equipa. Só uma equipa é que pode governar um hospital. O trabalho prestado num hospital é de grande complexidade, exigência e rigor e por isso são constituídos núcleos de trabalho que são funcionais junto da direcção clínica e que por sua vez se vão estendendo pelos próprios departamentos. Para além disso tudo temos um grande cuidado e preocupação com a humanização. Queremos estar próximos do doente, que o seu centro de preocupações seja o seu bem-estar e para isso trabalhamos para a sua assistência. Já desde o antigo hospital temos vindo a acrescentar medidas de franca melhoria no seu funcionamento com a nossa adesão à triagem de Manchester, segundo o grau de gravidade e prioridades. Simultaneamente reorganizámos os espaços e criámos uma unidade de cuidados intensivos e intermédios. Fizemos a adesão à Join Comission International para um controlo minucioso das boas práticas, portanto são três grandes medidas que aplicámos aqui para além do desenvolvimento normal de todas as áreas da especialidade que neste hospital vão tendo o seu percurso.
Focus - No que assenta este modelo público-privado?
J.V.F - Num modelo de prestação de serviço público com uma gestão privada. É este o modelo essencial. Agora a nossa preocupação é o bem-estar da população e não nos demitirmos de assumirmos uma parte importante do SNS. Toda a minha carreira foi feita no SNS no Hospital de São José. Orgulho-me muito deste hospital prestar um serviço público. Quase não damos conta da diferença na prestação dos cuidados, porque o mesmo rigor que tínhamos nos hospitais do SNS é o mesmo que temos aqui, com o acréscimo de que aqui temos indicadores de desempenho bastante exigentes e que temos de os cumprir senão podemos correr o risco de vir a ser punidos.
Focus - Este é o modelo do futuro em termos de Serviço Nacional de Saúde?
J.V.F - O modelo do futuro é um modelo que tem de ser desburocratizado e um modelo de responsabilização, humanização e diferenciação. Este para mim é o modelo de um hospital do futuro em que a governação clínica esteja próxima dos profissionais e dos doentes. É o modelo que eu defendo para que o SNS possa actualizar-se, renovar-se e inclusivamente restruturar-se, porque de facto este núcleo central deve ser mantido mas ser reformulado dentro destes padrões.
Focus - O que destaca em termos clínicos neste hospital que considere muito avançado em relação ao que há em Portugal?
J.V.F - Temos um hospital informatizado, sem papel. Esse é um dos aspectos mais inovadores. Temos um sistema de marcação de consultas electrónico. À entrada do hospital há umas máquinas onde a pessoa tira a sua senha com a consulta previamente marcada e tem acesso à chamada para o gabinete de consulta através de um quadro onde é anunciado o número da sua senha. Temos um atendimento personalizado à entrada onde estão funcionários que encaminham os doentes e informam. Temos um hospital do ponto de vista da governação clínica sempre em unidades de produção que estão debaixo de uma atenta e cuidada análise, que nos permite corrigir em muitos aspectos erros e incorrecções durante a semana de trabalho e que com esta análise detalhada e diária nos permite de uma forma positiva e pedagógica ajudar os profissionais do Hospital de Cascais a corrigirem procedimentos no sentido pedagógico e não crítico. Temos ainda uma prescrição electrónica e temos cerca de 27 a 28 estações de líquidos, de sangue, de análise em que não se torna necessário o transporte desses produtos de análises por via do circuito interno que disponibilizamos.
Focus - Quais são as principais especialidades médicas?
J.V.F - Todas têm para nós uma importância vital. Dentro das especialidades médicas, as novas que são a neurologia, a psiquiatria, a dermatologia e a urologia. Tivemos um reforço de meios em oftalmologia e otorrinolaringologia. Tivemos um reforço de meios na ginecologia e obstetrícia que é muito importante para dar resposta às freguesias de Sintra. Estamos numa fase de recrutamento de jovens anestesiologistas que queiram aprofundar os seus conhecimentos e trabalhar no nosso hospital. Temos uma equipa de urgência na área da medicina interna, um factor de grande desenvolvimento, e criámos no hospital uma área de apoio que se resume aos meios complementares de diagnóstico e terapêutica que dão apoio a todo o hospital de forma transversal. Para nós, todas as áreas de desenvolvimento médico e cirúrgico são fundamentais. Algumas precisaram de maior reforço do que outras e foi isso que fizemos nos últimos meses e continuamos a acertar.
Focus - Qual o principal objectivo que se segue?
J.V.F - Iniciámos um combate às listas de espera, começando pela especialidade de oftalmologia. Tínhamos mais de 1800 doentes em lista de espera para primeira consulta e iniciámos o plano de recuperação no dia 27 de Março, que esperamos que em quatro meses esteja satisfeito. Esperemos que nos próximos meses as listas de espera, especialmente esta que era a maior, estejam satisfeitas antes do final de Junho.
Ana Nunes
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